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Espaço para textos e reflexões a partir dos eventos promovidos pelo GPAL

Psicanálise em tempos de pandemia

por Maria Helena Barros

A pandemia causou, para todos, um impacto e a necessidade de repensar e refazer suas práticas. Na clínica psicanalítica se deu o mesmo: precisou abrir novos horizontes para enfrentar esse momento e se adaptar. O enquadre na clínica sempre se colocou em aberto para alguns psicanalistas, desde Ferenczi, adaptando-se às necessidades dos seus pacientes. Na contemporaneidade isso vem sendo motivo de muita produção teórica, com vistas a atender as necessidades das novas formas de sofrimento. Portanto, tivemos que lidar com a ausência da presença física e nos enquadrar nos atendimentos online. A sustentação de casos mais graves de forma presencial se fez necessário em algum momento, porém o psicanalista teve que dar sustentação, na maioria dos casos, à forma online, algo inusitado que mobilizou um esforço maior, pelas particularidades desse novo formato. Para surpresa de muitos, essa vem sendo uma modalidade possível, apesar das exigências de adaptação tanto do analista, quanto dos pacientes.

Um ano que muitos referem como não tendo acontecido, aconteceu sim! E aconteceu com muito sofrimento para alguns, exacerbando as angústias, os medos paranoicos, as defesas obsessivas e o confronto com perdas que não puderam ser veladas, deixando milhões de famílias na dor de um luto que não pode ser elaborado.

Um ano que, paralelamente, foi povoado de ações políticas desastrosas, descuido com a população por parte do governo federal, exatamente na medida em que faz uma defesa das mais primitivas - o negacionismo, que mobilizou sectarismo e ódio, assim como a difusão do vírus de forma assustadora, sendo o Brasil um dos países com maior número de mortes.

Ao mesmo tempo, está sendo um tempo que vem impondo mudanças na forma de ser, na busca das saídas criativas para não sucumbir. Uma dessas formas de abertura se deu pela via da solidariedade. Inúmeros grupos com uma atividade permanente de cuidado com a coletividade, na medida em que a desigualdade e a falta da ação do Estado na sustentação dos seus cidadãos vêm trazendo a miséria e a fome a patamares alarmantes. A ação solidária é uma forma de ação participativa que gera uma implicação ativa na transformação, aplacando o sofrimento e a impotência.

Maria Helena Barros

Psicanalista do CPP e CPPL

Texto escrito em abril/21.